domingo, maio 27, 2007

Os Solitários

Uma geração cujas sensações são potencializadas pela imagem e pela música se angustia muito quando o programa acaba. Sentem a carência do toque e da experiência, como se o distanciamento intrínseco à experiência da visão nos mostrasse quão próximo os outros sentidos podem nos deixar dos outros. Despertam-se, assim, desejos e emoções que constantemente não se realizam e, acima de tudo, o pavor da possibilidade de sua realização. Pois realizar tais desejos e emoções significa entrar em contato com facetas muito reprimidas numa vida midiatizada, facetas terríveis porque, ou fogem de nossa vida controlada, ou nos revelam quão solitários estamos.

Ao som de um britpop, vultos se agitam na pista escura e um rapaz grita no ouvido da menina:
- Você está sozinha?
- Mais ou menos – aperta os olhos a moça, tentando vencer a escuridão.
- Posso ser o mais? – responde sem pensar.
Versos singelos da música dominam os dois por um instante, então a menina:
- Vamos para o bar, quero dar uma olhada em você.
Longe da música, se viram. E conversaram. Ela fazia circo e tinha pretensões totalitárias. Ele era reservado e bissexual. De volta à pista, apenas não tiraram a roupa. Ela não aceitou ir para a casa dele e trocaram celulares. Jonas havia esquecido seu nome, mas disfarçou bem. Falaram bastante por telefone e MSN – que tinha o nome de Adriana.

O silêncio da casa sem a TV ligada apertava o peito de Daniel, mas havia decidido que não desperdiçaria mais um final de semana com seu cérebro transitando de uma emissora a outra. Procurou nomes em sua agenda. Impressionou-se com como a diversidade presente nada significava na busca de um amigo. Nada queria com colegas de trabalho. A família já era obrigado a ver nos feriados. Contatos que perderam o sentido. Daniel percebe também um certo constrangimento em retomar de repente contatos que não cultivava. Não queria parecer desesperado.
De A a Z, dois nomes. Um celular desligado ou fora da área de serviço e Bianca, que lhe atendeu calorosamente. Tinha acabado o namoro e tentava entender o mundo a partir da solidão da liberdade. Mesmo não se sentindo à vontade com sua própria proposta, Daniel sugeriu um bar – porque é geralmente assim que as pessoas se encontram e se socializam, pensou, nessas palavras. Bianca gostou da idéia e citou “aquele bar que toca jazz” do qual Daniel jamais ouvira falar, mas concordou em ir, já que a amiga “faz tempo queria conhecer”.
Conversaram lembranças e histórias, o que fizeram no período em que ficaram sem contato, exposições e desventuras. Estavam tão necessitados de falar que com certeza nenhum seria capaz de reproduzir o que o outro lhe contou naquela noite. A incompreensão foi mútua, mas a identificação inevitável. Estavam solitários e se encontrariam outra vez – um mês depois.
Bianca que ligou. Não agüentava mais os próprios problemas. E pensou que escutar os dos outros de alguma forma ajudaria. Daniel aceitou prontamente, se sentindo um estúpido por ter sido tão egoísta no último encontro, e disposto a reparar o erro sendo um bom ouvinte.

A coxa de Jonas se descola das nádegas de Adriana e o calor intenso dos corpos exaustos é refrescado. Queriam ir ao banheiro, mas temiam parar de sentir o cheiro um do outro. A exaustão conjunta é o grande momento de intimidade de uma maratona. A fragilidade e a sensibilidade são inevitavelmente expostas num físico muito exigido e são elas que fazem a ligação do prazer com a intimidade.
Num abraço apertado, percebem-se admirados um com o outro. Sorriem entre carícias e Jonas abre os braços permitindo à moça sair da cama primeiro. Quando Jonas volta, fazem aquele sexo afetuoso geralmente apelidado de amor e dormem profundamente.
Na tarde seguinte, ao levantarem, algo aconteceu. Havia uma sensação estranha no ar, um silêncio interrompido com uma pergunta sem graça:
- Heh, você é assim com todas as garotas? – se arrepende assim que termina a frase.
Jonas não sabia o que pensar. Teria sido para ela algo tão banal? Torna-se defensivo:
- Oras, você sabe, cada mulher, uma atitude! – se arrepende assim que termina a frase.
A insegurança se transforma em raiva.
- É. Foi divertido. A gente devia repetir qualquer dia desses.
Extremamente magoados e frios, se despedem.

Bianca pôs a bolsa sobre a mesa e retirou o vestido florido rumo à ducha, onde seus dedos foram ágeis e seus gemidos reservados. Com um pijama feliz, deitou-se lembrando de seus ex-namorados. Todos chegaram nela, foram tão explícitos. Nos primeiros encontros já a tinham beijado e declarações. Daniel, no entanto, tímido e tão amigável, faz-se isso: um amigo carente.
O adormecer se faz difícil, então ligou a TV. Um filme com gente estranha e silenciosa, perfeito para dormir. Alguns usam soníferos, outros filmes cult. O volume baixo não atrapalhava e as imagens em movimento lhe davam a impressão de que não estava sozinha afinal. Seus olhos se fecharam como se para abrir na manhã seguinte ao som do celular misturado à programação matutina. Num contínuo homogêneo, Bianca utiliza sua mão-de-obra altamente capacitada para preencher o banco de dados da empresa, volta para casa num trânsito sem sentido e liga a televisão para poder descansar. Uma rotina que se repete até ela acordar no final de semana. Aquele acordar seguido do desespero da decisão própria. Sem trabalho, namorado, ou amigos, o cinema lhe pareceu a melhor opção. No entanto, o telefone toca e combina com Daniel um almoço em sua casa. Ele cozinharia uma receita retirada do sítio de sua vó na Internet. A ligação foi calculada para um horário que desse a impressão que tivesse saído a noite anterior e permitisse à Bianca acordar, caso ela tivesse saído de verdade. Por isso, o almoço foi marcado para o meio da tarde. Como Bianca já há muito estava acordada, chegou cedo e cozinharam juntos, assim como fizeram muitas outras coisas juntos até a manhã seguinte. Tinham um relacionamento após muito conversarem.

O sexo beirou o sado-masoquismo. Mas, ao contrário da técnica, refinada e controlada, foi violento e sujo, demonstrando a intensidade emocional dos dois envolvidos. Confusos, cada um ora se impunha, ora se submetia, numa briga com arranhões, mordidas, cuspidas, sangue e tapas; absolutamente descontrolados, Jonas e Adriana se reconciliaram das mágoas que trocaram e estavam perdidamente apaixonados um pelo outro.


Daniel abre a porta desconfortável. Era uma situação incomum. Jonas e Adriana entram abraçados, cumprimentam-no e Bianca, sentam-se colados no sofá. Jonas passava a mão pelo corpo de Adriana com naturalidade, enquanto se divertiam como um casal. Reparando nas risadas e posturas, Bianca viu como o toque era desejado com ardor por ambos. Não deixou de sentir o forte cheiro de sexo recente que o casal exalava.
A noite passava com Adriana impressionada com a intimidade de Daniel e Bianca. Não havia detalhe que não soubesse do outro, como se tivessem crescido juntos. Um sabe os gostos dos outro, pensou Jonas, e têm uma linha clara de limite entre si, como se o namoro não tivesse lhes afetado um nada quem são.
Daniel ficou fascinado pelo corpo de Adriana, que queria uma relação tão bem discutida quanto a dele e Bianca, que queria um toque tão apaixonado quanto o de Jonas, que se sentia despersonalizado pela namorada. Quando os casais se separam, Daniel e Bianca queriam trepar loucamente, mas eram desajeitados juntos, e Adriana e Jonas precisavam conversar, mas ficaram sem silêncio.

Na manhã seguinte, o sangue nos lençóis não pareceu afetá-la, que, só, se arrumava. Seu corpo estava, porém, formigando, seus gestos confluíam com uma realidade exterior, como se definidos pelo destino, e nunca se sentira tão decidida, segura. O mundo nunca lhe pareceu tão real, todos seus sentidos se ampliaram e razões eram atropeladas por sentimentos de pavor, horror, felicidade, potência e êxtase. Não sabia – não queria – explicar como toda aquela raiva aflorou, mas tinha certeza de uma coisa: nunca se sentira tão livre – nunca concebera tão verdadeiramente o que livre significava até então. Quando voltar do trabalho, cuidaria para eliminar os vestígios da noite mais sensacional de sua vida.
Noutro canto da cidade dois corpos se levantam abruptamente, uma dor vazia no peito. Todo aquele ambiente descolorido de significado os angustiava e, numa troca de olhares, não se percebiam. Imersos em um fluido comum de sentimentos inexistentes estavam, mais do que nunca estiveram, ligados. A reflexão vazia, a solidão, foi o que perceberam nesta convergência única, de um momento, que lhes deu a compreensão de que jamais estiveram juntos, nem de si, nem do um do outro.

3 comentários:

Flávia disse...

Olá Artur, gostei do seu conto.Abraços

Flavia D disse...

Olá Artur. Gostei de seu modo de escrever. Quando puder, lerei mais. Abraços.

Anônimo disse...

Uma viagem ao centro do ser humano. Entre sentimentos ocultos, que se expressam por meio de atos de natureza animalesca, e a convivência solitária do homem social explorada tão friamente e ao mesmo tempo coberta de humanidade. Um dos melhores textos que já li abordando esse assunto com uma linguagem coloquial que torna mais facinante ainda cada parágrafo. Você ganhou uma grande fã! Continue criando!

Bê (Giulia)