Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Cotidianos I

17.07.2004

Desviando dos pingos de chuva, um bizarro ser, alto, magro, usando roupas listradas (horizontais para engordar), dançava contente pelas vielas escuras e frias. Cumprimentou um sapo de saias que coaxava numa esquina, atravessou a rua entre os carros velozes e entrou no café que tanto gostava.
- Boa noite, grande homem do caixa!
- Boa noite, caro visitante de sempre! Mandarei o chá e os biscoitos já!
- Eficiente como de costume! Muito obrigado.
Senta numa mesa com vistas para a rua e folheia o jornal do dia, sempre esquecido pelo freguês anterior, um já conhecido seu. Seu chá e biscoitos chegam trazidos por uma garçonete baixa e gorducha.
- Pelotinha! Muito obrigado! Diga logo, quando aceitará minha proposta de casamento?
- Ora, caro visitante de sempre, naturalmente que nunca! Você nunca voltaria ao café do meu marido e ele iria à falência!
- Deixe disso! Vocês sempre terão o freguês anterior!
- O freguês anterior! Aquele só vem para esquecer o jornal para você! Nada pede!
- Ah, pelotinha! Ainda acho que formaríamos um lindo ponto de exclamação!
- Deixe disso, seu bobo!
O bizarro ser se recolhe para ver as pessoas na rua. Uma coruja passa voando e pega o sapo de saias. O sinal se fecha. Os carros e as pessoas param. Um silêncio sepulcral domina as ruas da cidade. O ar fresco é o único circulante, sempre contrariando as regras. O sinal abre e todos continuam a fazer o que estavam fazendo.
Bizarro ser lê o jornal interessado. Há uma notícia sobre um evento absolutamente normal acontecendo no centro da cidade: uma pomba pousada sobre uma estátua imóvel. A polícia isolou a área e ninguém mais quis saber disso. Seus longos dedos brancos coçaram o queixo fino. Decidiu investigar, já que não tinha nada a ver com o caso.
- Já vou indo! Quanto devo?
- Ora, o de sempre! Um jornal do dia.
- Aqui está. Guarde as bolachas e o chá, sim?
- Pode deixar! Amanhã, o mesmo pedido.
- Muito agradecido, grande homem do caixa.
- Você tem certeza que quer que guardemos o chá e as bolachas? As bolachas estão cheias de bolor!
- Pelotinha! Ele é o caro visitante de sempre! Se mudar o pedido, o que vai ser dele?
- Não é a toa que tão magro...
Bizarro ser ignora a mesma ladainha de sempre da saída e vai à procura de uma carona para o centro. O ar fresco bate forte e o leva voando com as folhas. O ar fresco sempre é uma boa carona, ele nunca pára nos sinais.

Sábado, Abril 19, 2008

Estilhaços

Se sentou para escrever sua semana. Levantou-se, pegou um copo d’água. O computador estava ligado, foi checar e-mails. Procurou pessoas online. Fora ela, ninguém. Uma sensação de solidão a invadiu. Selecionou uma música e ficou prestando atenção na letra triste. Resolveu pesquisar a respeito da banda. Algumas horas se passaram na alternância desses movimentos.
Olhou cansada para seu caderno e a culpa não foi percebida pela intensidade de sua ansiedade. Sentou-se ao papel em branco. Por que não escrevo no computador, se pergunta em lamentação. Não era um trabalho para a faculdade, mas certamente uma obrigação. Se tenho o mínimo de respeito comigo mesma escreverei o que aconteceu. Um ódio terrível passou por ela atravessando lembranças. Burra! Burra!
Não lembrava há quanto tempo não saía de onde estava. Olhou para o relógio, desesperadamente mostrando o avanço do domingo. Não queria sair. Que farei aqui? Não quero escrever! Se espantou quando viu o chocolate em sua mão. Suspirou resignada. Foi se deitar. O sol brilhava. Precisava ler os textos para a aula. Quis chorar quando percebeu que havia livros em sua estante que sempre estiveram lá. Mandou a faculdade à merda e puxou um. Começou chato e o sol brilhava.
Desceu do prédio, foi ao pátio, mas não havia lugar bom para ler. Ficou desconfortável em uma sombra, que fazia frio quando ventava. O sol fazia o papel do livro doer os olhos. Arranjou-se e recomeçou. Pessoas passavam. Pessoas demais. Eu devia estar escrevendo! Não tinha papel ou lápis. Subiu. Ignorou outros membros do apartamento. O som da TV derretia seu cérebro. Se trancou no quarto. Memórias vieram. Incertezas surgiam. E se...
Computador. Sentada. Nada. Esperava uma resposta da máquina, alguém para conversar. Só havia jogos ridículos naquilo. Colocou uma música e se deitou. Não havia chocolates na casa. Saiu para comprar.
Todos pareciam estar fazendo algo. Sentia-se feia e suja, ignorava olhares, andava rápido. Calçada irregular. Entrou no mercado. Fila idiota. Queria desesperadamente voltar para casa. Trancar a porta foi um alívio.
Revistas! Folheou. Um certo tempo passou. Na janela, o sol sumia. Um frio tremeu seus músculos inativos. Coletou textos da faculdade que precisaria ler. Textos demais. Selecionou a matéria que lhe interessava. Leitura enorme. Copo d’água, chocolate, luz, isolamento, tudo pronto. Só checaria e-mails e mensagens antes. Uma amiga do outro lado da cidade leu suas lamentações e angústias. Escreveu-lhe sobre a semana terrível também. A parte em que ela estava envolvida omitiu. Já havia passado da hora racional de dormir para alguém que acordaria tão cedo. Exausta, culpada e entediada, dormiu.
Acordou apressada num horário em que não fazia mais sentido ter pressa. Amaldiçoou as demoras do ônibus – da chegada, do percurso, do destino – como se isso o fizesse mais rápido. A montanha de trabalho a paralisava. O afeto estava incerto. O tédio das aulas justificava sua ausência. A frustração a irritava.
Pensava em organizar seu tempo. Desejava ter mais amigos. Projetava uma carreira. Sentia falta de reconhecimento. Queria poder se apaixonar. A ansiedade a inundava.
A luz ficou vermelha e a multidão do lado direito se mesclou com a multidão do lado esquerdo para depois de dissipar. A luz verde fez tantos automóveis iluminarem caminhos demais. A cidade tremia numa existência rotineira. Ela era apenas mais uma tragédia pessoal, parte do ruído constante.

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No escuro apartamento a mulher só tem seu rosto concentrado iluminado pelo abajur. Sobre a mesa, extratos bancários e contas são a base para a calculadora que apita insistentemente, sendo apenas interrompida quando a moça morde seu chocolate. Um caderno surrado margina a mesa, a atenção voltada para os resultados da máquina. Espera uma resposta sua como se conversassem. Sorri com a mensagem que os números lhe passam e curte o silêncio do apartamento com mobília ainda incompleta.
O telefone toca. Sua amiga do outro lado do mundo viria lhe visitar. Dali a uma semana a pegaria no aeroporto. Um frio percorre sua espinha. Quatro anos! Olha para as caixas ainda espalhadas pelo apartamento, tantas mudanças!

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As pelancas eram projetadas como mísseis pela pressão do short curto demais. Os peitos caídos tinham os bicos saltados por baixo da fina blusa, enquanto a flacidez generalizada era apertada pelas mãos ávidas do rapaz sem censuras. A multidão pressionava o casal alcoolizado que enauseava as duas meninas observadoras. A música alegre e o bloco efervescente envolviam as duas estátuas.
- A gente deve ser muito feia.
Sua amiga, que acabara de empurrar um mendigo, se limitou a responder:
- Pior, temos critérios.
O tempo passou, critérios se flexibilizaram, uma já estava atracada a suores. A outra se afastou amuada. Elas estavam com um grupo de amigos, que alugou uma casa para o carnaval na pequena cidade. Nos dias seguintes, o chamado “quartinho do amor” da casa seria freqüentado por todos menos uma.
Irritadíssima, a “única” bebeu como nunca no último dia. Mal se agüentando em pé, encontra Fabrício. Seu corpo atlético, sua firmeza de caráter e espírito alegre eram absolutamente coerentes com o seu aceitável nível alcoólico. Mas ele deu bola, muita bola. Foi quando percebeu que o desfalecimento do corpo da menina tinha mais a ver com a bebida do que com sua pegada forte que a crise de consciência começou:
- Não é certo...
A menina deu uma chave de pernas no tronco definido do rapaz:
- Nunca! A gente vai pro quartinho do amor! – berrou.
- Mas você não tá em condições...
- A gente cria! – a multidão em volta se impressionou com a menina que berrava e gesticulava enquanto presa apenas pelas pernas ao rapaz que, enfim, aceitou.
Foram para a casa, entraram no tão esperado quarto e começaram. Ou melhor, Fabrício começou... e parou ao ouvir o primeiro ronco.
Na viagem de volta, seus amigos não perdoaram comentando que Fabrício havia ficado desolado com a menina tão legal, mas que bebia demais.

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A tempestade agita toda a raiva que o dia escaldante provocou. Um clarão ilumina o rosto do lado em que o céu não cai em fúria. Segundos depois, um ressoar treme todo o mundo, que parece não dar trégua. A chuva inunda e os ventos derrubam. As árvores, as casas, as pessoas sobrevivem como podem. A batalha começa.
- Foi realmente uma sorte isso não ter começado antes do meu avião pousar.
O rosto olha em direção aonde roupas são postas para fora das malas com selos de companhias aéreas. Se tivesse começado, a amiga não estaria ali. Sim, foi muita sorte, algo a se desfrutar.

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- Pois é, no prédio ao lado do meu, na Arquitetura. Ele é veterano dum ficante. Perguntou de ti...
No outro lado da cidade. A última vez que o viu estava ensandecida, suando álcool. Sem chances, o que ele devia pensar... Deixou pra lá. Se o início tivesse sido diferente poderia até rolar. Mas viu bem que o mundo não fora feito para ela, então arriscar se lançar a um rapaz que não a via como desejava não era uma opção. Melhor se resguardar e esperar passar, até que o mundo desse uma trégua. E assim foi. Mas, quanto mais demorava o armistício, menos disposição tinha para construir a manhã seguinte – que não melhorava:
- Sim, estamos juntos.
Só uma desgraça a mais. A amiga era assim, agarrava cada oportunidade, ninguém ali era culpado, porque não havia questão. O convívio com o casal se intensificava e a distância entre as amigas nem era percebida. Se formavam da faculdade, indecidiam suas vidas, estavam ocupadas demais para falar sobre qualquer sentimento que não existia.

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É sobre sentimentos que Camila pensa enquanto serve vinho à amiga e seleciona um vinil.
- Tu estás morando sozinha? Ba, quem diria! Não te sentes mais triste?
Como se houvesse tempo. Tantas atividades, responsabilidades e contas a pagar! Leva a sério seus compromissos.
- Ah, a boa garota de sempre! – um olhar frio não foi percebido pelo degustar do tinto – Eu não agüentaria essa rotina toda que tu te impões...
Disco tão antigo, riscado. Pena, não é algo que possa ser recuperado. Conecta o i-Pod às caixas de som. A amiga precisa perceber que os tempos mudaram e aceitar isso.
- Camila, moro em outro país, não tenho rotina, não passo três meses com o mesmo cara, acredite, sei lidar com as mudanças. Não é isso, estou cansada. Veja, tu estás neste apartamento, tens um emprego super estável e com todas essas coisas que tu construíste. Não consigo poupar, me fixar, manter nada!
Faz parte da vida firmar sua auto-suficiência, sua independência, um norte. Está bem clara sua necessidade de amadurecer, assumir as coisas que faz. Enche novamente os cálices.
- Sempre assumi as coisas que fiz! E olha que vivi coisas muito doidas, tanto que sinto que minha cota de loucuras já está acabando nesta existência! – dá um sorriso incerto às lembranças. Enfim, aconteceram algumas coisas, caíram algumas fichas... Camila, a vida é uma contagem regressiva. E a cada menstruação, um óvulo a menos!
A tempestade hipnotiza por algum tempo Camila e Letícia, que vêem o vidro protetor estremecer a cada trovão.

- Letícia, por que você voltou?
- Precisei... voltar pra cá, onde fui feliz.
Camila se levanta para pegar mais uma garrafa de vinho, perdida em alguma caixa de papelão:
- Vai abandonar as pessoas por lá, de novo.
- Mas do que falas, guria!
- Ainda tenho esperança que vou achar esse vinho – murmura enquanto abre lacres. Letícia vai à sua direção para ajudar.
Enquanto as duas se ocupam abrindo caixas lacradas para a mudança, a alguns metros acima do apartamento uma grande concentração de partículas carregadas negativamente entra em contato com partículas de carga oposta presentes na base da nuvem escura. A descarga luminosa atravessa o céu e o pára-raios, deslocando rapidamente o ar à sua volta, produzindo ondas de som e de choque que se propagam até o apartamento de Camila – justamente quando esta puxa uma garrafa de um seco fino. As ondas fazem-na estremecer, fazendo a garrafa voar de sua mão até o chão, onde se espalha manchando todo um entorno propício a marcas duradouras.
- Letícia, como você pode largar tudo de novo? Não existem pessoas lá que dependem de você? – solta em uma voz eufórica.
- Nossa Camila, que susto! Que tempestade horrível! Preci...
- Você simplesmente não se importa, não é mesmo? Continua não assumindo sua responsabilidade com as pessoas à sua volta! Não leva nada a sério, não é à toa que está sozinha!
- Cá, do que... ei, espera aí! O que tem a ver?
- Por que você abandona? Se acha tão superior às pessoas? – anos de cobrança e auto-rejeição dão trégua para algumas lágrimas. A amiga, confusa com o relâmpago de emoções, torna-se defensiva:
- É pra começar filosofia de balcão de cozinha? Deves olhar pra teu umbigo antes! Ficas tanto nessa de boa moça que não vives! Tiveste todas as chances, Camila, mas escolhes ficar no teu mundinho.
- Pelo menos tenho um lar. Não preciso apelar para amigas que não falo por anos para “voltar para onde fui feliz”. Eu tenho uma vida aqui, você não constrói nada em lugar nenhum! – Letícia se senta, atingida. Camila fica incerta sobre o que fazer.
- Tens razão, Camila. Mas te enganas ao pensar que faço isso porque me acho superior. Me sinto presa se fico muito tempo no mesmo lugar, preciso sair senão acho que as coisas à minha volta vão me engolir. Te admiro mesmo por poderes tomar essas decisões, mas também não te arriscas a nada! Ou é controlado e perfeito ou não acontece. – A amiga também se senta. – O que não entendo é o porquê desse rancor todo que guardaste de mim.
Camila olha para o chão de sua sala.
- Passemos um pano nisso. Está na hora de limpar esse vinho derramado.

O céu fica limpo, mas as luzes constantes da cidade não permitem que se vejam muitas estrelas. O que tirar disso, organiza Camila, recuperada. Somos duas vítimas. Ela não presta atenção nos sentimentos dos outros porque tem medo de ser dominada, de se perder num mar de responsabilidades. Se sente sem referência, vendo apenas o que lhe falta. Ela precisa aprender a se entregar, assumir o vínculo.
- Olhe só pra você, assim livre!
Letícia olha para a amiga de olhos inchados. Ela me admira, como sempre, presa às suas cobranças e lamúrias. Quer ser uma pessoa livre e espontânea, mas se perde cobrando isso e se preocupando horrores com o que os outros pensam. Não percebe que exatamente se lançando ao novo que podemos nos encontrar. Mas se sente uma fraca, vendo apenas o que lhe falta. Ela precisa aprender a se entregar, lutar pelo que quer.
- Olha só pra ti, tão forte!

Se senta à bancada da cozinha para escrever sua semana no caderno surrado. Letícia dorme até mais tarde, como tem feito nas últimas semanas – até quando só Deus sabe – , o que permite a Camila aproveitar o silêncio da casa:

“O que fica na história de uma pessoa? O que a constitui como um ser inteiro senão alguma liga que funde estilhaços de experiência, a qual chamamos de maturidade? A maturidade não é um equilíbrio ou uma sabedoria que faz nossas vidas culminarem em seus significados. É essa consciência ilusória de que uma coerência foi encontrada em todas as experiências. É o alcance de um olhar sobre si no tempo, que nos prepara para reproduzir de forma sofisticada tudo aquilo que já vivemos.”

Fecha o caderno e vai tomar sol.

Domingo, Janeiro 27, 2008

O garotinho subiu as escadas longas longas pra cair cair. Um buraco fundo em que estava sozinho. Todos morrem sozinhos ele disse. se conformou. Mas a escuridão continuava e ele se entediou e quis fazer alguma coisa amigos. que ele viu TV. Dormiu dormiu até acordar e se ver com sono e ficar mais um pouco. deu angústia.

Criou o menino imaginário. Desenharam um grande mapa saíram em busca do tesouro. Piranhas, barco que saía pela orelha do gato. O tesouro ficava num X, que cobriu com massa de modelar. O imaginário perguntou o que seria o tesouro. Bolinhas de massinha. Nenhum pirata quer isso. O mapa começa numa casa, disse realístico. Um pirata não mora numa casa. Um menino mora. Não é pirata, quem vai à caça ao tesouro é a criança.

Seu pai chegou que alegria, mas cansado ama muito todos nós, por isso está sempre longe. foi hipocondríaco. Diagnósticos mil. Foi quando percebeu que aquelas dores, sensações percepções, era a vida mesmo. “Preciso de uma escolha que excluí”, falou assim, num registro impensado e pequeno. Toda minha ação é altruísta, para esta família. Não tenho escolha, um abnegado. Na verdade parecia mentira.

Mamãe comenta: eu quero comprar roupas tristes. Não tenho roupas tristes suficiente. Você tem roupas o suficiente. Mas não tristeza. Eu quero o divórcio. Tudo bem, fico com metade de suas roupas. Eu te odeio, por que estou com você? Porque você ama o jeito como me visto.

Na mentira parecia verdade. A realidade está realmente sendo captada com a objetividade necessária? Assim, real na mente, mas real na mente de todos? A Bíblia diz tudo é vaidade e perseguição do vento. O Alcorão a vida não passa de um prazer efêmero. Pai, se tudo é vaidade e efêmero, o que é o sofrimento? Onde você arranjou um Alcorão? A mãe não sentido, tudo passa, somos livres. O sofrimento faz parte de nossos destinos. Se há liberdade nãodestino! Você não vai acabar com esta família! Eu fico com o garoto, mas você é que precisa de uma criança. Tó o imaginário, pai, ele sabe o mapa do tesouro. Você é meu tesouro filho. Com o tesouro você pode moldar o que quiser e, se não gostar, faz outra coisa.

Quarta-feira, Junho 06, 2007

Adormecer

Nas brumas do sono escrevo desejos ocultos mas revelados pela vontade de realização. Os olhos não se fixam e o corpo não responde, a atração para o sono faz de músculos navegantes nos pensamentos. Um piscar de olhos se torna pretexto para não acordar, cílios se colam e o globo ocular pára de tremer.
Um trepidar desperta assustado o olhar apertado e procura apoio para se manter. Nada parece interessante o suficiente que valha a vigília, por isso desiste e dorme.

Domingo, Maio 27, 2007

Os Solitários

Uma geração cujas sensações são potencializadas pela imagem e pela música se angustia muito quando o programa acaba. Sentem a carência do toque e da experiência, como se o distanciamento intrínseco à experiência da visão nos mostrasse quão próximo os outros sentidos podem nos deixar dos outros. Despertam-se, assim, desejos e emoções que constantemente não se realizam e, acima de tudo, o pavor da possibilidade de sua realização. Pois realizar tais desejos e emoções significa entrar em contato com facetas muito reprimidas numa vida midiatizada, facetas terríveis porque, ou fogem de nossa vida controlada, ou nos revelam quão solitários estamos.

Ao som de um britpop, vultos se agitam na pista escura e um rapaz grita no ouvido da menina:
- Você está sozinha?
- Mais ou menos – aperta os olhos a moça, tentando vencer a escuridão.
- Posso ser o mais? – responde sem pensar.
Versos singelos da música dominam os dois por um instante, então a menina:
- Vamos para o bar, quero dar uma olhada em você.
Longe da música, se viram. E conversaram. Ela fazia circo e tinha pretensões totalitárias. Ele era reservado e bissexual. De volta à pista, apenas não tiraram a roupa. Ela não aceitou ir para a casa dele e trocaram celulares. Jonas havia esquecido seu nome, mas disfarçou bem. Falaram bastante por telefone e MSN – que tinha o nome de Adriana.

O silêncio da casa sem a TV ligada apertava o peito de Daniel, mas havia decidido que não desperdiçaria mais um final de semana com seu cérebro transitando de uma emissora a outra. Procurou nomes em sua agenda. Impressionou-se com como a diversidade presente nada significava na busca de um amigo. Nada queria com colegas de trabalho. A família já era obrigado a ver nos feriados. Contatos que perderam o sentido. Daniel percebe também um certo constrangimento em retomar de repente contatos que não cultivava. Não queria parecer desesperado.
De A a Z, dois nomes. Um celular desligado ou fora da área de serviço e Bianca, que lhe atendeu calorosamente. Tinha acabado o namoro e tentava entender o mundo a partir da solidão da liberdade. Mesmo não se sentindo à vontade com sua própria proposta, Daniel sugeriu um bar – porque é geralmente assim que as pessoas se encontram e se socializam, pensou, nessas palavras. Bianca gostou da idéia e citou “aquele bar que toca jazz” do qual Daniel jamais ouvira falar, mas concordou em ir, já que a amiga “faz tempo queria conhecer”.
Conversaram lembranças e histórias, o que fizeram no período em que ficaram sem contato, exposições e desventuras. Estavam tão necessitados de falar que com certeza nenhum seria capaz de reproduzir o que o outro lhe contou naquela noite. A incompreensão foi mútua, mas a identificação inevitável. Estavam solitários e se encontrariam outra vez – um mês depois.
Bianca que ligou. Não agüentava mais os próprios problemas. E pensou que escutar os dos outros de alguma forma ajudaria. Daniel aceitou prontamente, se sentindo um estúpido por ter sido tão egoísta no último encontro, e disposto a reparar o erro sendo um bom ouvinte.

A coxa de Jonas se descola das nádegas de Adriana e o calor intenso dos corpos exaustos é refrescado. Queriam ir ao banheiro, mas temiam parar de sentir o cheiro um do outro. A exaustão conjunta é o grande momento de intimidade de uma maratona. A fragilidade e a sensibilidade são inevitavelmente expostas num físico muito exigido e são elas que fazem a ligação do prazer com a intimidade.
Num abraço apertado, percebem-se admirados um com o outro. Sorriem entre carícias e Jonas abre os braços permitindo à moça sair da cama primeiro. Quando Jonas volta, fazem aquele sexo afetuoso geralmente apelidado de amor e dormem profundamente.
Na tarde seguinte, ao levantarem, algo aconteceu. Havia uma sensação estranha no ar, um silêncio interrompido com uma pergunta sem graça:
- Heh, você é assim com todas as garotas? – se arrepende assim que termina a frase.
Jonas não sabia o que pensar. Teria sido para ela algo tão banal? Torna-se defensivo:
- Oras, você sabe, cada mulher, uma atitude! – se arrepende assim que termina a frase.
A insegurança se transforma em raiva.
- É. Foi divertido. A gente devia repetir qualquer dia desses.
Extremamente magoados e frios, se despedem.

Bianca pôs a bolsa sobre a mesa e retirou o vestido florido rumo à ducha, onde seus dedos foram ágeis e seus gemidos reservados. Com um pijama feliz, deitou-se lembrando de seus ex-namorados. Todos chegaram nela, foram tão explícitos. Nos primeiros encontros já a tinham beijado e declarações. Daniel, no entanto, tímido e tão amigável, faz-se isso: um amigo carente.
O adormecer se faz difícil, então ligou a TV. Um filme com gente estranha e silenciosa, perfeito para dormir. Alguns usam soníferos, outros filmes cult. O volume baixo não atrapalhava e as imagens em movimento lhe davam a impressão de que não estava sozinha afinal. Seus olhos se fecharam como se para abrir na manhã seguinte ao som do celular misturado à programação matutina. Num contínuo homogêneo, Bianca utiliza sua mão-de-obra altamente capacitada para preencher o banco de dados da empresa, volta para casa num trânsito sem sentido e liga a televisão para poder descansar. Uma rotina que se repete até ela acordar no final de semana. Aquele acordar seguido do desespero da decisão própria. Sem trabalho, namorado, ou amigos, o cinema lhe pareceu a melhor opção. No entanto, o telefone toca e combina com Daniel um almoço em sua casa. Ele cozinharia uma receita retirada do sítio de sua vó na Internet. A ligação foi calculada para um horário que desse a impressão que tivesse saído a noite anterior e permitisse à Bianca acordar, caso ela tivesse saído de verdade. Por isso, o almoço foi marcado para o meio da tarde. Como Bianca já há muito estava acordada, chegou cedo e cozinharam juntos, assim como fizeram muitas outras coisas juntos até a manhã seguinte. Tinham um relacionamento após muito conversarem.

O sexo beirou o sado-masoquismo. Mas, ao contrário da técnica, refinada e controlada, foi violento e sujo, demonstrando a intensidade emocional dos dois envolvidos. Confusos, cada um ora se impunha, ora se submetia, numa briga com arranhões, mordidas, cuspidas, sangue e tapas; absolutamente descontrolados, Jonas e Adriana se reconciliaram das mágoas que trocaram e estavam perdidamente apaixonados um pelo outro.


Daniel abre a porta desconfortável. Era uma situação incomum. Jonas e Adriana entram abraçados, cumprimentam-no e Bianca, sentam-se colados no sofá. Jonas passava a mão pelo corpo de Adriana com naturalidade, enquanto se divertiam como um casal. Reparando nas risadas e posturas, Bianca viu como o toque era desejado com ardor por ambos. Não deixou de sentir o forte cheiro de sexo recente que o casal exalava.
A noite passava com Adriana impressionada com a intimidade de Daniel e Bianca. Não havia detalhe que não soubesse do outro, como se tivessem crescido juntos. Um sabe os gostos dos outro, pensou Jonas, e têm uma linha clara de limite entre si, como se o namoro não tivesse lhes afetado um nada quem são.
Daniel ficou fascinado pelo corpo de Adriana, que queria uma relação tão bem discutida quanto a dele e Bianca, que queria um toque tão apaixonado quanto o de Jonas, que se sentia despersonalizado pela namorada. Quando os casais se separam, Daniel e Bianca queriam trepar loucamente, mas eram desajeitados juntos, e Adriana e Jonas precisavam conversar, mas ficaram sem silêncio.

Na manhã seguinte, o sangue nos lençóis não pareceu afetá-la, que, só, se arrumava. Seu corpo estava, porém, formigando, seus gestos confluíam com uma realidade exterior, como se definidos pelo destino, e nunca se sentira tão decidida, segura. O mundo nunca lhe pareceu tão real, todos seus sentidos se ampliaram e razões eram atropeladas por sentimentos de pavor, horror, felicidade, potência e êxtase. Não sabia – não queria – explicar como toda aquela raiva aflorou, mas tinha certeza de uma coisa: nunca se sentira tão livre – nunca concebera tão verdadeiramente o que livre significava até então. Quando voltar do trabalho, cuidaria para eliminar os vestígios da noite mais sensacional de sua vida.
Noutro canto da cidade dois corpos se levantam abruptamente, uma dor vazia no peito. Todo aquele ambiente descolorido de significado os angustiava e, numa troca de olhares, não se percebiam. Imersos em um fluido comum de sentimentos inexistentes estavam, mais do que nunca estiveram, ligados. A reflexão vazia, a solidão, foi o que perceberam nesta convergência única, de um momento, que lhes deu a compreensão de que jamais estiveram juntos, nem de si, nem do um do outro.

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Quarto de Hotel

Um quarto num hotel barato, outrora luxuoso. Reconhecem os que por lá já passaram o papel de parede florido e envelhecido, cuja superfície irregular é coberta por quadros com fotos urbanas, assim como seus móveis gastos e madeirentos, com cheiro de origem e histórias. Grandes personalidades por ele já passaram, mas nenhuma conhecida. É visitado hoje por luxúrias e volúpias, todas bem conhecidas e exploradas. Inconsciente e indefeso, deixa-se penetrar por casais e grupos com cortinas fechadas, abafando as luzes que vêm do desconhecido.
A porta se abre e uma mini-saia e um cansado pai existem. Não há inexperiência no recinto, não havendo nada que os separe. Carnes cruas cansadas de jogos vivendo senão por inércia. Para uma, jogos são obrigação. Para outro, um desesperado pedido de socorro.
Não há novidade quanto a homens distraídos. Querem atenção e compreensão, gastam mais a noite e raramente saem satisfeitos pagando mais por sua culpa ou displicência. Está, contudo, pouco maternal esta noite. Gestos secos derrubam roupas no carpete, o principal foco de atenção entre as quatro paredes, ao som de respirações pesadas.
As cortinas fechadas não se mexem, pulmões se esforçam a puxar um ar que insiste em ficar parado, os sentidos urgem por uma atitude e o tempo ultrapassa os limites do bom senso da distância. Em um sólido e concentrante processo de paciência e resignação, uma voz feminina acaricia o ambiente, forçando o fluido denso em volta, enquanto o perfume adocidado sutilmente se azeda e o quarto perde uma existência. Por alguns instantes, um corpo começa a relaxar e a ser assediado, há a impressão de que todo o quarto está envolvido nele e seus desejos de conforto, que a sua existência é e nada mais. Esses instantes, de repente, param. Subitamente, duas pessoas se encontram no quarto. Elas olham uma para a outra num estranhamento e incertas. E extremamente cansadas. Olhos indiscriminadamente trocam olhares, pavorosamente detectam a presença do outro. Rugas e marcas tornam-se reais, o outro parece formar-se junto de seu passado e de seu presente, revelando-se impensadamente em sua existência. O quarto não tem sentido, apenas os dois que nele se encontram e o dividem.
O pavor da constatação cresce à medida que compreendem o que um fazia com o outro e que, sem tais jogos, não haveria razão para estarem lá. Se não fosse a obrigação de estar lá, por que Jéssica estaria fazendo o que faz? Se não fosse a fuga de suas responsabilidades, o que seria de Paulo naquele quarto?
Uma brisa movimenta as cortinas do quarto, mostrando luz incerta através da janela. Mas ela logo pára.
Os dois desviam o olhar. Jéssica está certa de que não é só aquilo, tem todo um motivo para fazer o que faz. Ela não é apenas o que está naquele quarto. Paulo respira e vê com clareza que está acima de tudo aquilo. É só um quarto sujo e uma prostituta barata. Levanta-se, paga-a, apieda-se e sai do quarto. Jéssica conta o dinheiro, pensa na família e nas contas e fecha a porta.

Medos I

Após risos compartilhados e encontros sem resultados me encantei e a quis para mim. O que é muito complicado num momento de incertezas, em que o resultado de uma vida se confronta com uma outra vida que quer começar. O longo processo de auto-destruição criou inúmeras peças desagregadas e com frio, procurando se acolher numa nova estrutura, ainda sem forma e ainda frágil. Esse novo arranjo, entretanto, ainda repete os vícios e movimentos, agora desarticulados, do antigo e é assim, mais frágil e mais quebradiço.
Chega nesse momento tal incrível criatura, apavorante nos olhos da nova vida nua, que é perigosamente receptiva, que é facilmente desestruturada. Novos olhos incertos do que vêem, que querem ver mas não reconhecem o que se apresenta. Frente a ela há o pavor do desejo misturado à iminência da rejeição. Os vícios agem e a estrutura desaba sobre todos em volta. Qual sua reação? Só os olhos respondem.
Serão abraços e sorrisos uma feliz esperança ou uma masoquista ilusão? Serão as ausências um sinal do que significo? Se for, o significado é bom ou ruim? Ó, medo da entrega. Temo jogar-me em seus braços e não encontrar suporte, despedaçando-me no chão.

Estudos II

- Com licença, vou ao meu quarto fazer um aborto.

Só fica a senhora de vestido negro costurando um vestido negro. O cheiro de mofo é o que impede a cadeira de ranger com o balanço esquizo. O corvo sobre a lareira foi empalhado e enfeita a família entediada com a moldura de mogno.
Violentamente a porta se abre e adentra com o peito nu e a barriga redonda exposta cheios de sebo e sangue uma criatura carregando o corpo de um urso pardo que fitava o teto. Ao jogar o corpo no chão e se ouvir o barulho da carne se acomodando no solo, o caçador arranca a língua do urso e a põe melequenta entre as línguas sua e da velha. Depois a passa entre as pernas da anciã, que fica insatisfeita com o vestido cheio de sangue.
O homem aproveita a ocasião do aborto da filha e adentra seu quarto com a intenção de estuprá-la no processo. A velha coça os cortes no qual ele a costuma penetrar. O urso num lamento cospe mais sangue. O sangue e o mofo fazem o abortado triturado vomitar líquido amniótico.
A velha pega uma faca e abre um buraco de um punho e começa a puxar as entranhas do urso, que ainda não se afogou com o próprio sangue. Ao chegar o estômago, encontra o olho do segurança do zoológico. Joga-o junto às tripas no balde de limpeza, que vai ao fogão virar ensopadinho. O feto foi aproveitado. O cheiro é azedo.
Sentam-se à mesa e engolem com ânsia o vômito um do outro e depois o picadinho. A filha pega o olho e o morde como a uma maçã. O pai lhe dá um tapa e ela guarda o resto do olho entre suas coxas. A velha parece cansada, respira o ar viciado com dificuldade e quer morrer. O caçador limpa as narinas do urso cujos olhos se contorcem. A menina senta sobre o olho comido e faz movimentos repetitivos. O som é do gemido que não sai do urso desesperado.
A bile sobe e o câncer que apodrece o seio esquerdo da velha é lambido e mordido pela boca com restos de fezes de urso. É irregular e com reentrâncias que guardam uma sujeira antiga, que nem a unha da menina conseguiu raspar. A menina se esfrega no urso e puxa seu olho pra morder. A casa adormece, mas os sonhos se confundem. O prazer de um é o pesadelo do outro e uma dor de cabeça começa o dia seguinte.

Estudos I

A beleza das pessoas que conheço está sempre associada a uma certa infelicidade, uma tristeza contígua, uma dimensão apreensível apenas nas latências da experiência estética que se apresenta. Observo a garota, uma menina cuja beleza transparece nos gestos joviais de uma sensualidade inocente. A lembrança dela é a imagem de um sorriso e um olhar distante.Uma figura linda, que não manifesta traço algum de melancolia, só uma reticência que não se conclui. E aí se desvela um medo da incerteza e uma incerteza de fato. Angustiante figura se revela nos instantes efêmeros em que o sorriso se vai e o resto se congela, a beleza no movimento triste de uma atitude que lida de forma bem sucedida com um mal que nos atordoa a todos. Há outra, ereta e elegante, exprimindo personalidade e força, a beleza em sua atitude de entrega a um fim que se delegou. Alguém não apenas verdadeiramente lindo, mas também apaixonante. Nos momentos de fragilidade e descontração também se entrega radiante, demonstrando a flexibilidade madura de uma vida da qual muito se exigiu. É aí que está a dimensão triste, o construto social, adequado, do qual nos revestimos, a inseparabilidade da manifestação autêntica do ser e os formatos sociais. Há ainda o rapaz inteligente e sério. Sua beleza é agressiva, sua convicção e seus fundamentos o enobrecem. Mas quando se aproxima daquela menina, forma a mais bela figura, fica absolutamente confortável e descontraído, se diverte como um menino na forma de homem pode se divertir. O triste aqui está muito mais evidente, mas não menos digno de compaixão. A união e a parceira que tanto deseja não tem reciprocidade, seu desejo se acumula em instintos agressivos e amargor que constroem exatamente sua nobreza. Pensando noutro jovem, cheio de potencial, tão vazio de objetivos. Ou noutra garota, mulher-desejo, uma sedução involuntária de alguém que quer vínculos duradouros, mas só encontra lobos afoitos. Todos lindos, todos tristes. Mas no final dessas observações questiono eu: ao enxergar tristezas nos outros que estes nem mesmo reconhecem, será que tais desventuras estão mesmo sob a beleza que vejo, ou estão inculcadas no olhar do observador? Fugidio, vejo somente eu no que quero enxergar.

Sábado, Julho 15, 2006

crítica - Eu, você e todos nós (2005)

crítica de filme
Eu, você e todos nós (2005)

O filme de Miranda July é autoral. Não tenho muita certeza do que quero dizer com isso, mas tenho essa impressão ao ver na figura de cada personagem uma faceta evidente da roteirista que também é diretora e atriz. July aparece como crianças curiosas, explorando o mundo sensível à sua volta, abertas aos desejos e estranhezas que lhes acometem. July também aparece como adultos machucados, atentos ao mundo sensível à sua volta, carentes e inseguros aos desejos e estranhezas que lhes acometem.
Isso se aplica também ao ambiente seguro do filme. Todos se conhecem, são de alguma forma familiares. Os traumas também são de família, cerceados por um confortável colchão de amor (não romântico) que não os impede de se machucar, mas alivia bastante. Queimar a mão ou morrer sozinho não são problemas que cortam fundo, já que queimar a mão é torná-la sensível ao toque do amor, assim como o amor impede de que estejamos sozinhos afinal. Há amor por todos os lados, sensibilizando todo mundo.
E é isso que pode tornar o filme insuportável para alguns espectadores. Seguros, todos se permitem uma ingenuidade que, se adequada ao universo infanto-juvenil, pode se tornar insólita quando se envolve os "adultos" do filme. Nada é levado às últimas conseqüências, porque seria muito cruel. Mas isso não é a vida, é um filme. Na vida os adultos ingênuos - ou sinceros e sensíveis - sofrem demais e July não quis fazer um filme sobre os sofrimentos da sua vida, mas sua percepção sobre como ela deveria ser. É questão saber se a dela combina com a do espectador.

cinema: Espaço Unibanco
nota: 6,5