sábado, abril 19, 2008

Estilhaços

Se sentou para escrever sua semana. Levantou-se, pegou um copo d’água. O computador estava ligado, foi checar e-mails. Procurou pessoas online. Fora ela, ninguém. Uma sensação de solidão a invadiu. Selecionou uma música e ficou prestando atenção na letra triste. Resolveu pesquisar a respeito da banda. Algumas horas se passaram na alternância desses movimentos.
Olhou cansada para seu caderno e a culpa não foi percebida pela intensidade de sua ansiedade. Sentou-se ao papel em branco. Por que não escrevo no computador, se pergunta em lamentação. Não era um trabalho para a faculdade, mas certamente uma obrigação. Se tenho o mínimo de respeito comigo mesma escreverei o que aconteceu. Um ódio terrível passou por ela atravessando lembranças. Burra! Burra!
Não lembrava há quanto tempo não saía de onde estava. Olhou para o relógio, desesperadamente mostrando o avanço do domingo. Não queria sair. Que farei aqui? Não quero escrever! Se espantou quando viu o chocolate em sua mão. Suspirou resignada. Foi se deitar. O sol brilhava. Precisava ler os textos para a aula. Quis chorar quando percebeu que havia livros em sua estante que sempre estiveram lá. Mandou a faculdade à merda e puxou um. Começou chato e o sol brilhava.
Desceu do prédio, foi ao pátio, mas não havia lugar bom para ler. Ficou desconfortável em uma sombra, que fazia frio quando ventava. O sol fazia o papel do livro doer os olhos. Arranjou-se e recomeçou. Pessoas passavam. Pessoas demais. Eu devia estar escrevendo! Não tinha papel ou lápis. Subiu. Ignorou outros membros do apartamento. O som da TV derretia seu cérebro. Se trancou no quarto. Memórias vieram. Incertezas surgiam. E se...
Computador. Sentada. Nada. Esperava uma resposta da máquina, alguém para conversar. Só havia jogos ridículos naquilo. Colocou uma música e se deitou. Não havia chocolates na casa. Saiu para comprar.
Todos pareciam estar fazendo algo. Sentia-se feia e suja, ignorava olhares, andava rápido. Calçada irregular. Entrou no mercado. Fila idiota. Queria desesperadamente voltar para casa. Trancar a porta foi um alívio.
Revistas! Folheou. Um certo tempo passou. Na janela, o sol sumia. Um frio tremeu seus músculos inativos. Coletou textos da faculdade que precisaria ler. Textos demais. Selecionou a matéria que lhe interessava. Leitura enorme. Copo d’água, chocolate, luz, isolamento, tudo pronto. Só checaria e-mails e mensagens antes. Uma amiga do outro lado da cidade leu suas lamentações e angústias. Escreveu-lhe sobre a semana terrível também. A parte em que ela estava envolvida omitiu. Já havia passado da hora racional de dormir para alguém que acordaria tão cedo. Exausta, culpada e entediada, dormiu.
Acordou apressada num horário em que não fazia mais sentido ter pressa. Amaldiçoou as demoras do ônibus – da chegada, do percurso, do destino – como se isso o fizesse mais rápido. A montanha de trabalho a paralisava. O afeto estava incerto. O tédio das aulas justificava sua ausência. A frustração a irritava.
Pensava em organizar seu tempo. Desejava ter mais amigos. Projetava uma carreira. Sentia falta de reconhecimento. Queria poder se apaixonar. A ansiedade a inundava.
A luz ficou vermelha e a multidão do lado direito se mesclou com a multidão do lado esquerdo para depois de dissipar. A luz verde fez tantos automóveis iluminarem caminhos demais. A cidade tremia numa existência rotineira. Ela era apenas mais uma tragédia pessoal, parte do ruído constante.

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No escuro apartamento a mulher só tem seu rosto concentrado iluminado pelo abajur. Sobre a mesa, extratos bancários e contas são a base para a calculadora que apita insistentemente, sendo apenas interrompida quando a moça morde seu chocolate. Um caderno surrado margina a mesa, a atenção voltada para os resultados da máquina. Espera uma resposta sua como se conversassem. Sorri com a mensagem que os números lhe passam e curte o silêncio do apartamento com mobília ainda incompleta.
O telefone toca. Sua amiga do outro lado do mundo viria lhe visitar. Dali a uma semana a pegaria no aeroporto. Um frio percorre sua espinha. Quatro anos! Olha para as caixas ainda espalhadas pelo apartamento, tantas mudanças!

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As pelancas eram projetadas como mísseis pela pressão do short curto demais. Os peitos caídos tinham os bicos saltados por baixo da fina blusa, enquanto a flacidez generalizada era apertada pelas mãos ávidas do rapaz sem censuras. A multidão pressionava o casal alcoolizado que enauseava as duas meninas observadoras. A música alegre e o bloco efervescente envolviam as duas estátuas.
- A gente deve ser muito feia.
Sua amiga, que acabara de empurrar um mendigo, se limitou a responder:
- Pior, temos critérios.
O tempo passou, critérios se flexibilizaram, uma já estava atracada a suores. A outra se afastou amuada. Elas estavam com um grupo de amigos, que alugou uma casa para o carnaval na pequena cidade. Nos dias seguintes, o chamado “quartinho do amor” da casa seria freqüentado por todos menos uma.
Irritadíssima, a “única” bebeu como nunca no último dia. Mal se agüentando em pé, encontra Fabrício. Seu corpo atlético, sua firmeza de caráter e espírito alegre eram absolutamente coerentes com o seu aceitável nível alcoólico. Mas ele deu bola, muita bola. Foi quando percebeu que o desfalecimento do corpo da menina tinha mais a ver com a bebida do que com sua pegada forte que a crise de consciência começou:
- Não é certo...
A menina deu uma chave de pernas no tronco definido do rapaz:
- Nunca! A gente vai pro quartinho do amor! – berrou.
- Mas você não tá em condições...
- A gente cria! – a multidão em volta se impressionou com a menina que berrava e gesticulava enquanto presa apenas pelas pernas ao rapaz que, enfim, aceitou.
Foram para a casa, entraram no tão esperado quarto e começaram. Ou melhor, Fabrício começou... e parou ao ouvir o primeiro ronco.
Na viagem de volta, seus amigos não perdoaram comentando que Fabrício havia ficado desolado com a menina tão legal, mas que bebia demais.

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A tempestade agita toda a raiva que o dia escaldante provocou. Um clarão ilumina o rosto do lado em que o céu não cai em fúria. Segundos depois, um ressoar treme todo o mundo, que parece não dar trégua. A chuva inunda e os ventos derrubam. As árvores, as casas, as pessoas sobrevivem como podem. A batalha começa.
- Foi realmente uma sorte isso não ter começado antes do meu avião pousar.
O rosto olha em direção aonde roupas são postas para fora das malas com selos de companhias aéreas. Se tivesse começado, a amiga não estaria ali. Sim, foi muita sorte, algo a se desfrutar.

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- Pois é, no prédio ao lado do meu, na Arquitetura. Ele é veterano dum ficante. Perguntou de ti...
No outro lado da cidade. A última vez que o viu estava ensandecida, suando álcool. Sem chances, o que ele devia pensar... Deixou pra lá. Se o início tivesse sido diferente poderia até rolar. Mas viu bem que o mundo não fora feito para ela, então arriscar se lançar a um rapaz que não a via como desejava não era uma opção. Melhor se resguardar e esperar passar, até que o mundo desse uma trégua. E assim foi. Mas, quanto mais demorava o armistício, menos disposição tinha para construir a manhã seguinte – que não melhorava:
- Sim, estamos juntos.
Só uma desgraça a mais. A amiga era assim, agarrava cada oportunidade, ninguém ali era culpado, porque não havia questão. O convívio com o casal se intensificava e a distância entre as amigas nem era percebida. Se formavam da faculdade, indecidiam suas vidas, estavam ocupadas demais para falar sobre qualquer sentimento que não existia.

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É sobre sentimentos que Camila pensa enquanto serve vinho à amiga e seleciona um vinil.
- Tu estás morando sozinha? Ba, quem diria! Não te sentes mais triste?
Como se houvesse tempo. Tantas atividades, responsabilidades e contas a pagar! Leva a sério seus compromissos.
- Ah, a boa garota de sempre! – um olhar frio não foi percebido pelo degustar do tinto – Eu não agüentaria essa rotina toda que tu te impões...
Disco tão antigo, riscado. Pena, não é algo que possa ser recuperado. Conecta o i-Pod às caixas de som. A amiga precisa perceber que os tempos mudaram e aceitar isso.
- Camila, moro em outro país, não tenho rotina, não passo três meses com o mesmo cara, acredite, sei lidar com as mudanças. Não é isso, estou cansada. Veja, tu estás neste apartamento, tens um emprego super estável e com todas essas coisas que tu construíste. Não consigo poupar, me fixar, manter nada!
Faz parte da vida firmar sua auto-suficiência, sua independência, um norte. Está bem clara sua necessidade de amadurecer, assumir as coisas que faz. Enche novamente os cálices.
- Sempre assumi as coisas que fiz! E olha que vivi coisas muito doidas, tanto que sinto que minha cota de loucuras já está acabando nesta existência! – dá um sorriso incerto às lembranças. Enfim, aconteceram algumas coisas, caíram algumas fichas... Camila, a vida é uma contagem regressiva. E a cada menstruação, um óvulo a menos!
A tempestade hipnotiza por algum tempo Camila e Letícia, que vêem o vidro protetor estremecer a cada trovão.

- Letícia, por que você voltou?
- Precisei... voltar pra cá, onde fui feliz.
Camila se levanta para pegar mais uma garrafa de vinho, perdida em alguma caixa de papelão:
- Vai abandonar as pessoas por lá, de novo.
- Mas do que falas, guria!
- Ainda tenho esperança que vou achar esse vinho – murmura enquanto abre lacres. Letícia vai à sua direção para ajudar.
Enquanto as duas se ocupam abrindo caixas lacradas para a mudança, a alguns metros acima do apartamento uma grande concentração de partículas carregadas negativamente entra em contato com partículas de carga oposta presentes na base da nuvem escura. A descarga luminosa atravessa o céu e o pára-raios, deslocando rapidamente o ar à sua volta, produzindo ondas de som e de choque que se propagam até o apartamento de Camila – justamente quando esta puxa uma garrafa de um seco fino. As ondas fazem-na estremecer, fazendo a garrafa voar de sua mão até o chão, onde se espalha manchando todo um entorno propício a marcas duradouras.
- Letícia, como você pode largar tudo de novo? Não existem pessoas lá que dependem de você? – solta em uma voz eufórica.
- Nossa Camila, que susto! Que tempestade horrível! Preci...
- Você simplesmente não se importa, não é mesmo? Continua não assumindo sua responsabilidade com as pessoas à sua volta! Não leva nada a sério, não é à toa que está sozinha!
- Cá, do que... ei, espera aí! O que tem a ver?
- Por que você abandona? Se acha tão superior às pessoas? – anos de cobrança e auto-rejeição dão trégua para algumas lágrimas. A amiga, confusa com o relâmpago de emoções, torna-se defensiva:
- É pra começar filosofia de balcão de cozinha? Deves olhar pra teu umbigo antes! Ficas tanto nessa de boa moça que não vives! Tiveste todas as chances, Camila, mas escolhes ficar no teu mundinho.
- Pelo menos tenho um lar. Não preciso apelar para amigas que não falo por anos para “voltar para onde fui feliz”. Eu tenho uma vida aqui, você não constrói nada em lugar nenhum! – Letícia se senta, atingida. Camila fica incerta sobre o que fazer.
- Tens razão, Camila. Mas te enganas ao pensar que faço isso porque me acho superior. Me sinto presa se fico muito tempo no mesmo lugar, preciso sair senão acho que as coisas à minha volta vão me engolir. Te admiro mesmo por poderes tomar essas decisões, mas também não te arriscas a nada! Ou é controlado e perfeito ou não acontece. – A amiga também se senta. – O que não entendo é o porquê desse rancor todo que guardaste de mim.
Camila olha para o chão de sua sala.
- Passemos um pano nisso. Está na hora de limpar esse vinho derramado.

O céu fica limpo, mas as luzes constantes da cidade não permitem que se vejam muitas estrelas. O que tirar disso, organiza Camila, recuperada. Somos duas vítimas. Ela não presta atenção nos sentimentos dos outros porque tem medo de ser dominada, de se perder num mar de responsabilidades. Se sente sem referência, vendo apenas o que lhe falta. Ela precisa aprender a se entregar, assumir o vínculo.
- Olhe só pra você, assim livre!
Letícia olha para a amiga de olhos inchados. Ela me admira, como sempre, presa às suas cobranças e lamúrias. Quer ser uma pessoa livre e espontânea, mas se perde cobrando isso e se preocupando horrores com o que os outros pensam. Não percebe que exatamente se lançando ao novo que podemos nos encontrar. Mas se sente uma fraca, vendo apenas o que lhe falta. Ela precisa aprender a se entregar, lutar pelo que quer.
- Olha só pra ti, tão forte!

Se senta à bancada da cozinha para escrever sua semana no caderno surrado. Letícia dorme até mais tarde, como tem feito nas últimas semanas – até quando só Deus sabe – , o que permite a Camila aproveitar o silêncio da casa:

“O que fica na história de uma pessoa? O que a constitui como um ser inteiro senão alguma liga que funde estilhaços de experiência, a qual chamamos de maturidade? A maturidade não é um equilíbrio ou uma sabedoria que faz nossas vidas culminarem em seus significados. É essa consciência ilusória de que uma coerência foi encontrada em todas as experiências. É o alcance de um olhar sobre si no tempo, que nos prepara para reproduzir de forma sofisticada tudo aquilo que já vivemos.”

Fecha o caderno e vai tomar sol.

4 comentários:

erica disse...

Nossa! Que grande...heheh
Não terminei de ler, ainda...
MAs o começo, é tão profundo e bem urbano..
Sabe, que numa cronica, no Estadao, o Marcelo Rubens Paiva escreveu que a maior solidão de um paulistano e pensar que as pessoas lá fora vivem e ele não!
Verdade, né?
Desde que eu li isso, fico mais tranqüila quando passo o fim de semana em casa, pois eu não sou a unica...

Anônimo disse...

sem muito a dizer. apenas refletindo sobre.

Fabio Ferriche disse...

Creio que nesse texto há menos preocupação com a forma e mais com o conteúdo. Ponto positivo.

Há quem diga que escrever é eliminar palavras. Nisso eu acredito. Neste caso, faltou escrita e sobraram palavras.

Continue escrevendo, eu quero ler.

.leticia santinon disse...

Essa Letícia da história é muito parecida com essa Letícia que escreve agora...impressionante!

Muito bom.